Teatro precisa de cuidado
Num domingo fui à igreja com uma criança. No caminho expliquei o que era a quaresma e
como ela chegaria até a Páscoa. O ponto principal da conversa foi sobre o tempo simbólico da
quaresma. Tudo explicado de modo que um pequeno de três anos fosse capaz de entender.
Destaquei a imagem coberta de Cristo por pano roxo, achei que o impacto visual seria legal.
Quando lá chegamos, cadê o pano roxo? Não tinha. Jesus Cristo estava lá, curtindo o calor
sem coberta além do tapa-sexo. Procurei nos santos, num canto qualquer e nada. Por sorte, o padre
fazia a partilha do pão e do vinho. Foquei no pão.
Nos sentamos na escadaria da igreja e expliquei que o Menino Jesus (é assim que o outro
menino o chama) tinha um pão só e deu um pedacinho para cada amigo, para todo mundo comer.
Daí a conversa foi para oferecer merenda e partilhar os brinquedos…
Fui para casa pensando no pano roxo e na importância de cada detalhe em um espetáculo.
Por melhor que seja a história, um descuido pode fazer o público ir embora frustrado. E público que
não está acostumado com teatro só precisa de uma frustração para nunca mais voltar.
Cada costura, cola, foco de luz com acabamento bom melhora a qualidade da apresentação.
Descuidar disso é como esquecer o pano roxo do protagonista: a morte.

Gustavo Burla
Professor, fazedor de teatro e de textos. Criador do Hupokhondría e leitor nas horas possíveis. Já esteve no Nepopó como jurado, diretor de espetáculo, plateia e consultor.